Desafios (pouco divulgados) da amamentação

Quantos desafios as mães enfrentam pra amamentar e, muitas vezes, encaram tudo sozinhas?

Mas, embora os desafios sejam muitos, acho que não existe lugar que cause mais pânico numa mãe de primeira (ou até mesmo de segunda, ou terceira viagem) que a balança do consultório do pediatra, definitivamente. Acho que dentre todas as queixas relacionadas à amamentação, essa, sem sombra de dúvida, é a mais freqüente e, ao meu ver, aquela que é absolutamente capaz de colocar todo o processo de amamentação por água abaixo. Mãe agüenta dor, mãe agüenta mamilo fissurado, mãe agüenta peito ingurgitado, mãe agüenta muitas noites mal dormidas, mas nenhuma mãe, em sã consciência, agüenta ver seu filho perder peso ou não se enquadrar dentro da famigerada curva de crescimento. 

O fato é que há muito, as mulheres deixaram de acreditar no seu potencial de nutriz. E por que? Por que acreditar que a natureza seria tão estúpida a ponto de, dentro de sua infinita capacidade e diversidade, dentro dos milhões de anos de seleção natural das espécies, criar um mamífero, fisiologicamente incapaz de alimentar sua cria? Pra mim, isso não faz o menor sentido. E é a partir daí que gostaria de fazer algumas ponderações que julgo extremamente importantes relacionadas ao sucesso da amamentação.

  1. SOMOS SERES CULTURAIS E RACIONAIS: o fato de podermos pensar a respeito das coisas é por vezes muito bom, mas também pode ser traiçoeiro. Embora tenhamos instintos, nosso livre arbítrio nos permite seguí-lo ou não e, embora nosso corpo nos leve a ter determinado comportamento, nossas crenças e normas culturais podem nos sabotar. E, acreditem, sabotam a amamentação, todo o tempo.
  2. ACESSO LIVRE ÀS FÓRMULAS INFANTIS: Sim, as fórmulas podem ajudar e são muito bem vindas nos casos em que a mãe, pelas razões mais diversas, não pode amamentar seu bebê, mas lembremos, elas deveriam ser a exceção e não a regra.
  3. FALTA DE INFORMAÇÃO BASEADA EM EVIDÊNCIA POR PARTE DE PROFISSIONAIS DA SAÚDE:Não há nada que me embrulhe mais o estômago do que escutar uma mãe dizer que foi orientada a estipular tempo e horário de mamadas, ou que tem pouco leite porque tentou ordenhar e não saiu nada ou que o bebê está chorando de fome. Primeiro, cada bebê tem um ritmo. Há aqueles que ordenham o leite do seio em 5 minutos e há aqueles que o façam em uma hora. Como alguém pode saber se 10, 15 ou 20 minutos são suficientes pra saciar um bebê? Acho isso, no mínimo, pretensioso. Porque o coitado não pode querer mamar um pouquinho agora e pouquinho daqui meia hora? Por que não permitir que eles, a partir de sua experiência, aprendam gradativamente a controlar sua saciedade e a se auto-regular?
  4. ORDENHA NÃO É PARÂMETRO DE PRODUÇÃO DE LEITE: Daí alguém tem a infeliz ideia de “ver quanto sai do peito pra saber se o bebê tá saciado. NÃAAO, gente! Mil vezes, não! Ordenha não é e nunca será parâmetro de produção de leite, porque nenhuma bomba NO MUNDO será tão eficaz na retirada do leite do seio como a boca de um bebê. NUNCA.
  5. BEBÊS PRECISAM SUGAR: acho que ninguém tem dúvida disso, na verdade. A grande questão aqui é que a rotina da vida moderna cada vez menos permite que a mãe esteja disponível pra saciar essa necessidade fisiológica do bebê e por isso a chupeta entra em cena. O problema é que, pra uma dupla de mãe e bebê que está com dificuldades no estabelecimento da amamentação, qualquer bico artificial pode atrapalhar e MUITO. A sucção estimula a produção de leite e, portanto é extremamente importante deixar que o bebê sugue livremente. “Chupeitar” é natural e instintivo. Ao contrário do que muitos pensam, chupeitar (sucção não nutritiva do seio) não se compara a uma meia maratona (se assim fosse, os bebês que ficam o dia inteiro com a chupeta na boca seriam mirrados e magrelos). Mamar faz sim o bebê gastar energia, MAS ela só vai demandar esforço excessivo e gasto energético acima do normal, se o bebê estiver com alguma dificuldade pra ordenhar o leite do seio (pega incorreta, sucção débil, e por aí vai…). Nesses casos, eles cansam, dormem e não ganham peso (e nesses casos, o manejo adequado, orientações com base em uma avaliação feita por profissional competente fazem toda a diferença!).
  6. BEBÊS CHORAM: E choram mesmo, alguns mais outros menos. E choram pelos mais diversos motivos, afinal, é a única forma que eles têm de se comunicar. O lance é, o choro é sinal tardio de fome e por isso oferecer uma mamadeira nem sempre (quase nunca) é a melhor solução. É preciso tentar entender a natureza desse choro, antes de qualquer coisa. Bebês gostam de calor, de pele, de carinho, de aconchego. Bebês precisam de colo, precisam se sentir acolhidos. E não, eles não ficarão mimados e muito menos se tornarão déspotas manipuladores. Se atendidos prontamente em suas necessidades, se tornarão adultos seguros e confiantes pois tiveram amor e carinho durante sua infância. Pq foram respeitados em suas necessidades desde tenra idade. Eu nunca soube de algum caso de violência em que o meliante tivesse se tornado uma pessoa do mal por excesso de carinho. Agora, se pensarmos no oposto, poderíamos fazer uma lista quase que infinita. E acreditem, bebês que ficam no colo, choram menos.
  7. FALTA DE ACOLHIMENTO, APOIO, AJUDA À MULHER NO PÓS-PARTO: Considero o puerpério uma das fases mais difíceis da vida da mulher. Uma mulher no puerpério precisa de ajuda com a rotina, com a casa, eventualmente com outros filhos se ela tiver, e até com os cuidados com o bebê. As mulheres dos dias de hoje, nessa ânsia de serem mulher-maravilha, se esquecem de pedir ajuda. Esquecem-se de que precisam descansar, precisam se conectar com aquele novo ser, precisam aprender a lidar com as muitas feridas emocionais que podem se abrir quando do nascimento de um filho. Precisam saber que existe o Blues, existe a depressão pós-parto e precisam saber que são capazes de atravessar essas interpéries. Precisam ser acolhidas. Embora muitas pessoas tentem dar conselhos no “lidar” com as demandas daquela nova criança, é comum que esses conselhos estejam carregados de práticas e opiniões que podem ter sido úteis pra aquela pessoa que está ali na maior das boas intenções, mas não atendem às necessidades reais daquela mãe com dificuldades. No fundo, ela precisa, acima de tudo, procurar o silêncio interior pra que haja fluidez no processo de amamentação. Ela precisa acreditar em si e não se distanciar dos seus instintos.
  8. FALTA DE MANEJO ADEQUADO DIANTE DOS PROBLEMAS RELACIONADOS À AMAMENTAÇÃO: A grande maioria dos problemas relacionados à amamentação têm solução e pra cada um deles existe um manejo adequado. Pra algumas duplas os ajustes podem levar mais tempo, pra outras menos. Contudo, a urgência da vida moderna muitas vezes atropela o ritmo de adequação dessas dificuldades e não permite que haja tempo pra que as arestas sejam aparadas. Na maioria dos casos, é preciso paciência e persistência. Os bebês não são iguais. Existe uma tendência quase que universal em se comparar e padronizar o comportamento humano, porque afinal, desta forma, as coisas ficam mais controláveis. Gente, o ser humano não é matemática e aquele bebê já nasce com uma história de vida desde de sua concepção. Ele foi carregado no ventre por 9 meses e sentiu muito do que sua mãe sentiu durante esse tempo. Ele passou por experiências dentro do útero, ele carrega uma carga genética que também traz uma história. Ele é único e ao mesmo tempo, encontra-se emocionalmente fundido com sua mãe (embora muitas mães não saibam disso).
  9. SOMOS MAMÍFEROS: acho que contra fato, não há argumento. Somos mamíferos com M maiúsculo. Eu, você, todas somos plenamente capazes de amamentar nossos bebês. O primeiro passo é acreditar. O segundo é deixar o bebê mamar. Sem relógio por perto. E se dúvidas e dificuldades surgirem ao longo do caminho, busque ajuda profissional. Busque grupos de apoio. Busque informações. Mas tenha sempre em mente que técnicas podem ser facilmente aprendidas, contudo, muitas das respostas sempre estarão dentro de você, do seu coração. Porque o amamentar vai muito além da nutrição do corpo físico, ela representa uma conexão entre mãe e filho que livro nenhum nunca será capaz de explicar.

Muito ainda precisa ser feito pela amamentação. Ainda temos muito a aprender. Os bebês ainda têm muito a nos ensinar. Mas uma coisa é certa, gente: A NATUREZA FUNCIONA. Não nos esqueçamos disso…

Quer se aprofundar mais nesse assunto? Vem conferir o conteúdo do Curso Avançado em Amamentação:

Um beijo e até a próxima!

Isa Crivellaro

Fonoaudióloga e Consultora em Amamentação

7 thoughts on “Desafios (pouco divulgados) da amamentação

  1. Isa, parabéns pelo excelente texto! Trabalho em banco de leite humano desde 2012 e sou completamente apaixonada por isso tudo! Espero que seu texto chegue a muitas mães e, principalmente, a muitos profissionais. Tenho certeza que abrirá muitas mentes e dará conforto a muitas mães que estão passando ou passarão por algum dificuldade. PARABÉNS!!!

  2. Realmente, falou bem o que se passa. O que mais me deixa furiosa, é que depois de superar tudo isto, acaba a licença maternidade e o bebê nem terminou as vacinas… outro problema na sociedade

  3. Isa, quanta informação bacana você transmite em seus textos! Estou prester a ganhar bebê e gostaria de saber se você faz consulta particular e se necessario vai na residência ajudar na amamentação.

    1. Oi querida! Q bom que vc está aproveitando as informações do Blog! Sim, faço atendimentos em domicílio. Precisando é só chamar!!
      Bjos

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